terça-feira, 28 de agosto de 2012

Pela grandeza da igualdade!


Me lembro uma vez em 1987, indo pro colégio de trem, vi uma criança pequena brincando de atirar flechas no monstro de metal com seu arco de brinquedo. Estudava no Luis Tarquínio, pegava o trem até a Calçada e ia a pé o resto do caminho. Podia até pegar o busu direto, mas sabe quando se faz amizade nos transportes? (Nos horários certos tem aquela galera) A barca em Plataforma era uma opção e pegar outro busu na calçada também, visto que era mais vazio e me deixava na porta da escola, mas eu gostava de andar e pegando apenas o trem me sobrava dinheiro pra ir ao cinema, que era então me melhor passatempo depois de conhecer a cidade e as pessoas.
Anos seguidos e muitas escolas sucedidas eu sempre dizia que era de Periperi e os "bullyneiros" ficavam sempre pentelhando chamando de  "terra de índio" e blá blá blá, até professores brincavam com seus alunos que moravam em locais tão afastados ou tão pobres quanto o subúrbio e não lembro uma vez se quer de alguém ter sido ameaçado com armas, faça, agressões, ou se tem notícia de alguma chacina como em Columbine. Faltou pouco? Vocês precisavam ver como alguns professores ensinavam em alguns colégios, o que eles diziam para as meninas negras de cabelo "ruim", para os ralados que moravam longe e chegavam com os pés sujos de lama, etc. Isso pode ter mais de 20 anos, mas alguns desses continuam ensinando e fazem até greve por melhores condições. Aliás foi um dos meus maiores problemas com o vestibular, eu não queria ter um diploma e me tornar um imbecil.
"Pela grandeza da igualdade!" eu estive sempre ao largo dessa conversa porque conheço bem onde vivo, conheço os habitantes do meu pequeno mundo. Mesmo nos lugares onde eu não aconselho ninguém ir vou e volto sem nada me ferir. Sei que nem todas as pessoas estão dispostas a encarar certas dificuldades, mas quem nunca foi cego sabe o valor de tudo o que vê e por isso eu prefiro as viagens demoradas. Talvez seja a saudade de meus tempos de colégio. Naquele tempo eu adorava andar de ônibus, porque adorava olhar a cidade, às vezes, quando aparecia uma linha nova, fazia uma viagem completa só pra conhecer. Isso era bem útil pois no meio das conversas no intervalo sempre se descobria alguma coisa na nova rota, ou passava próximo a casa de alguém. 
Hoje tudo é muito mais fácil, temos o "google street view", wikipédia, GPS, celulares inteligentes... quando encontro alguém de há muito tempo que me pergunta se ainda moro em Periperi e respondo que sim com um sorriso, e me perguntame eu casei e respondo que não com uma risada, e perguntam se eu tenho filhos e mais uma vez minha resposta é não, pensam que estou morto. Aí voltam a falar de Periperi e suas histórias macabras que nunca existiram, mas só aconteciam aqui. É sério que em 2012 ainda tem gente que pensa que existem índios na suburbana?

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