terça-feira, 27 de agosto de 2013

and i feel completely alone

Aí, num desses "sabadão depressão", depois de passar um dia pra esquecer lá vou eu procurar alento na noite. É bom a cidade ter opções gratuitas de diversão que não somente a praia, porque quando chove, danou-se. É bom locais como o MAM, com o Jazz pra abrir a noite de sábado, que, apesar de não ser gratuito, é uma opção barata e decente. Às vezes é chatão, admito. Percussionistas demais fazendo barulho demais, pior pra mim que tenho ficado cada dia mais chato com mococó e dança de rato, mas o normal é que a música seja de alta qualidade e nem mesmo alguém com todo baixo astral do mundo é capaz de ficar incólume diante dessa energia musical inspiradora. Os caras tocam certo e a ausência de vocais é o que mais  agrada naquele espetáculo.
Antes de chegar lá o telefone não dava sossego, mas não houve uma ligação sequer que me deixasse menos infeliz. Me sentia só, mas pior era que estava tão triste que qualquer companhia seria por mim tão desagradada que acabaria por fim também desagradável. Eu não tenho muita paciência quando estou assim e não gosto de magoar pessoas, mas sei ficar extremamente desagradável. Muito mais quando procuro ajuda e não sou levado a sério, mas eu não vou ficar aqui falando disso. A gente percebe bem a diferença entre amigos e camaradas quando fica triste. A maioria das pessoas acham que a tristeza é apenas falta de dinheiro, mulher ou drogas.
Eu sabia que em casa não iria ficar mais tranquilo, nem em casa de ninguém. Eu precisava da rua, do ar frio noturno do inverno desgraçado. Saí decidido a me divertir. Passei na casa de uma amiga, que não estava, perdi 2 horas, mas outro tanto de paciência em telefonemas, que acabaram por fazer broxar minha esperança de algo mais alegre e então peguei o primeiro busu que apareceu e fui ser feliz na companhia inesperada de minha solidão que sabia que o MAM não ia me abandonar num dia horrível como esse. Na pior das hipóteses ia aparecer um percussionista convidado.
Desci no Terminal da França e fui caminhando até o Solar do Unhão. Passei pelo 2º Distrito Naval ouvindo Ovos Presley. Antes parei no posto pra comprar cerveja e tinha lá uma turma com cara de padaria, pura farinha de trigo em suas caras. Um dos caras me olhou meio assustado com os olhões esbugalhados de quem estava fazendo coisa errada, achando que eu era polícia, bandido, sei lá, mas eu nem mesmo lhes cumprimentei, entrei no posto, peguei me cerveja e saí continuando com meu fone de ouvido no volume máximo.
 "Sou um cão sarnento, um vira-latas vagabundo, o mais lixo de todos, o mais podre deste mundo.."
Cheguei no MAM escutando Billie Hollyday. Eu não esperava encontrar ninguém, mas também não esperava continuar sozinho. Por sorte ou azar haviam poucos conhecidos, nenhum parceiro ou parceira de copo ou qualquer aventura, nenhuma gracinha perdida. Nem mesmo com os caras vezeiros de MAM eu me bati, mas talvez nem no meu melhor sonho eu  teria uma surpresa boa daquela. Entre uma cerveja e outra, uma ganja e outra dos presentes, no palco alguém assume o microfone a convite do curador da jamsession.
Quando eu conheci essa menina, já completamente apaixonado por sua voz, sua presença de palco e sua performance encantadora e emocionante, além de sua beleza meio índia Iracema, meio a nora que mamãe pediu a Deus, 100% uma mulher dos sonhos... (juro que eu sou tímido e não conseguiria dizer isso a ela assim porque ela ia achar que eu estava de xaveco.) Talvez tivesse até, mas é pura sinceridade: Aiace Félix não é simplesmente linda moça ela é uma jóia.
E aí que lá estava eu curtindo a minha desgraciosa solidão depressiva escutando àquela voz maravilhosa cantar "só pra mim" uma canção de um sanfoneiro véio, que morreu fazia pouco; canção que parece ter sido feita pra que neste momento fosse roubada só pra mim, que contemplava a perfeição em suas mais formidáveis formas harmônicas, sonoras, sensíveis. Era como estar num sonho que se pode tocar, sentir o gosto...
"um xodó pra mim do meu jeito assim, desse jeito assim, que alegra o meu viver,"
Foi realmente um daqueles momentos em que um homem tem a sua vida salva. Voltei pra casa e pra a minha triste solidão, mas agora eu era apenas um transeunte bêbado e feliz.

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