domingo, 15 de setembro de 2013

No Soundcloud do Seu Preto tem Chico Buarque

Tanto amar (Chico Buarque 1981)
  
"Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita"

Tanto amar (Seu Preto 2013): https://soundcloud.com/thilindao/tanto-amar

Lembro de certo verão na ilha de Itaparica em que apenas a farra era o que determinava a nossa vontade. Bebíamos o dia todo na praia, paquerávamos todas as garotas, jogávamos bola todos os dias. A vida era quase perfeita. Éramos jovens e tínhamos muitos sonhos, mas também pesadelos. E tínhamos tanta disposição para tudo que às vezes éramos capazes de proezas de se impressionar o mais incrédulo dos homens.
Que porra isso tudo tem a ver com a música de Chico Buarque? Nesse verão, um dos meus amigos resolveu nos pregar uma peça, mas ninguém até hoje o conseguiu compreender, a não ser o próprio Chico que com sua poética simples e certeira nos diz que para o amor não importa se ela é zarolha, capenga, magricela e desdentada; não importa se ele é remelento, fedido, maltrapilho, miserável. É o amor quem governa seus atos, sua vontade de ter amor e de dar amor, e se fazer amar.
Foi num desses ímpetos amorosos que um amigo nosso, de nome fictício "Chico Buarque", paquerou e conquistou a garota mais indesejável daquele verão. Não sei. Talvez o nosso "gosto" por mulheres seja diferente, talvez nosso trato com as pessoas seja diverso, mas creio que só mesmo ele, o poeta, poderia ter criado criatura mais poeticamente desarticulada. Não julguemos aqui o fato de se tratar de uma moradora de rua com provável deficiência mental, era adulta o bastante para estar tão bêbada como nosso colega e acredito que até ela mesma tenha se arrependido no dia seguinte, mas quem vai saber? Ela não era agradável com muitas pessoas.

"Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito"

Sim, a garota era mesmo capenga e esse texto não é nada simpático com esta estrábica. Ainda pensando nisso 20 anos depois creio que jamais vi cena tão impressionantemente bizarra quanto a de Chico enroscado nas pernas tortas da sua amada em uma fria noite de verão. Bebia-se muito, mas o respeito era tudo. A desgraciosa cena era de um encanto surreal. Aquele casal lá abraçadinho no barco teve mais sorte que a gente naquela noite.

"Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar
E outro me fita"

No dia seguinte Chico nos olhou nos olhos e disse que iria morar em "Porto Rico" com sua amada. Que nenhum de nós o devia julgar e que jamais estivera tão feliz por ter feito uma tão fenomenal ação coprófila. Fomos à praia tomar cachaça e paquerar todas as garotas do dia e pudemos ver a amada nossa de nosso amigo de mala e cuia indo pra algum lugar longe dele e da ilha, cremos. Então chico novamente nos fitou e pediu nossa atenção: "Vamos beber!"

"Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar
Em Porto Rico"

Qualquer coisa que faça sentido nessa música vai me levar de volta àquele verão e ao breve amor de meu jovem e esperançoso amigo. Não sei quantas vezes eu pude admirá-lo mesmo sem compreendê-lo e agora eu quase posso invejá-lo. Um brinde ao amor incompreensível.

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