sábado, 19 de novembro de 2011

O cão vai ao rio com seu dono vadio

Noite de quinta-feira sem convites para farra, nem mesmo o desejo de uma orgia me faz pensar em sair de casa e encontrar pessoas capazes de estragar completamente um dia como esse de quase tédio, mas sem marasmo, pois pude manter minha mente ocupada em algo muito importante. O calor absurdo do quarto não combina com o conhaque sob a cama. A TV não aparece como uma distração e sim como um inimigo dos pensamentos vagos sobre a noite, o dia seguinte e as possibilidades. Esvazio mais uma garrafa de água, é a segunda do dia. Possibilidades... assisto vários filmes.
O sono não dá sinal. Pego o ventilador, mais uma garrafa de água, uma dúzia de spams e assim como decidira ficar em casa resolvi sair para dar uma volta com Conhaque, que segundo a esposa de meu irmão havia ficado louco quando eu viajei, como, segundo ela, costuma ficar sempre que eu passo muito tempo longe. Pobre cão. Eu tenho sido um péssimo amigo ao longo dos seus inacreditáveis 4 anos. Ele já é um adulto faz tempo, mas parece ainda um filhote, um fanfarrão. Passear com ele à noite pelas ruas desertas de Pericity é um dos meus sonambulismos preferidos.
Os cães tem a capacidade de perceber a chegada de uma pessoa querida, e outros cães, a grande distância, não sei se pelo cheiro, ou pelos passos conhecidos, parece mais uma premonição. Eu posso perceber quando algum cão está dirigindo a mim seus latidos. Depois de um beck a minha sensibilidade aumenta, minha e deles quanto à minha presença, e disparam a latir quando eu passo. De alguma maneira eu percebo que seus latidos não são de ira, soam como uma saudação: “sou tão canino quanto eles, isso é o que eles veem”, foi o que eu vim a concluir.
Outro dia, voltando de bike pela estrada velha, ouvi uma cadela despencar de uma laje depois de ter latido para alguém que eu não sei se era eu, mas ainda pude vê-la se levantar do tombo e tomar a direção de casa. Entristeci. Ela deve ter se machucado e talvez até morrido depois. Alguns animais não conseguem compreender o que é uma pessoa andando de bicicleta, eles apenas notam o deslocamento estranho e a limitação de movimentos, não sei se sabem, mas alguns animais vivem exclusivamente desse tipo de observação, e, como toda observação, depende dos olhos. Aqueles que não enxergam bem perseguem os veículos. Possivelmente aquela cadela também tinha problemas de visão.
Com Conhaque eu não chamo tanto a atenção dos outros cães, pois o bonitão é o rei da rua. Ontem ele pôde ficar sem a guia pois não se via viva alma. Andamos calmamente, ele à frente conferindo cada poste, cada amontoado, cada portão, é incrível como ele é incansável, com dois palmos de língua para fora o tempo inteiro indo e vindo de um lado para o outro. Às vezes entra numa rua errada e eu o chamo, vem virado na zorra, passa direto por mim, e recomeça o trabalho de vistoria carimbando tudo com seu mijo infinito. Um rolé básico passando pela praça do sol (os “homi” lanchavam em frente ao campo do baba, por isso nada de bufus na praça), pegamos o rumo do canal do Paraguari até a cocheira, de volta dessa vez pelo outro lado do rio. Um sacizeiro ali, uma puta louca acolá, alguns cães sem dono e uma “lua smile” foram nossos únicos companheiros nessa caminhada brisótica. Na volta pra casa, mais uma passada pela praça do sol, indo até perto da 5ª delegacia e pegando a rua que separa a malhada da urbis. Próximo ao fim de linha nos deparamos com um doidão de bike e uma matilha que guardava seus donos de rua. Entrando em “minhas quebrada” eu podia ouvir o latido de cada cão da redondeza. Todos nos latiam.

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