quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A música e a inspiração

Bukovski dizia que gostava da música clássica pela ausência de voz, pois ele achava que seria muita informação para o seu cérebro enquanto escrevia ou dirigia. O que é que eu vou dizer ao velho Buk? Estava velho e chato como os de personalidade forte como ele.
A música clássica sempre será a inspiradora preferida de alguém... que se fodam! Eu mesmo a prefiro em muitos momentos, mas não tem nada a ver com a presença de uma voz humana. Imagina se a voz de uma Aretha Franklin, Billie Holiday, Amy Winehouse, vai atrapalhar o raciocínio de alguém. Só uns caras malucos como Bukovski. Às vezes uma voz nos faz ter boas idéias e algumas letras de músicas são mesmo uma fonte de inspiração extra e ainda, às vezes,  nos dão a própria resposta para qualquer dificuldade em expressar alguma idéia. A música é uma tábua de salvação.
Vou dizer uma coisa sobre o meu hábito de ouvir música: não é mais a mesma coisa de quando eu tinha 12 anos e ficava horas com o fone de ouvido na sala e o encarte dos discos na mão aprendendo as letras das músicas, aumentando o vocabulário pré-adolescente. Passei alguns anos sem ter condições de ouvir música em casa, sem walkman, sem comprar discos e isso me fez perder muito, não do mundo da música, que foi piorando com o tempo, mas das letras das canções que eu gostava que deixei de aprender e isso até hoje atrapalha as serenatas.
Quando eu pego um violão em meio a um lual ou uma simples reunião de amigos fico sem saber o que faze com ele. A depender da média de idade do grupo eu posso não saber tocar sequer uma musiquinha e a maioria das vezes ou invento as notas na hora, ou simplesmente toco uma bobagem qualquer e passo a bola, mas devo confessar que isso irrita mais a mim que aos meus ouvintes. Fazer o que? Reciclagem? Não. Preciso mesmo é de uma memória auxiliar.
Quando me sento para escrever prefiro musica cantada à gritada. Os blues de 30 a 50 são a verdadeira sonoridade de minha alma. Sinto a cantar (papo aviadado da porra, mas é sério). Escrever ouvindo T-bone, Willie Johnson, reverendo Gary Davis, é como se eu estivesse em outro tempo, suspenso no tempo, talvez perdido, mas todo enfiado na música, sabe como é? Uma outra alma assume meu lugar e então eu estou livre de toda essa merda. Como o velho Buk que não se sentia parte de coisa nenhuma. 
Mesmo com tanto poder de armazenamento de informações em mp3 players, mp4 e celulares algumas pessoas entrem no ônibus com um som de péssimo gosto em volume alto para que todos se sintam tão inúteis quanto a música que toca sem ser pedida. É uma violência, mas é nesse mundo que estamos convivendo, e procriando, e criando novos conceitos de arte. 
O que fazer se Robert Johnson existiu? Algumas pessoas são surdas e não terão nunca o prazer de ouvir sua música pura e sem apelos comerciais imbecis. Eu próprio queria ser surdo pra certas coisas, mas vivo em 2011 e não consigo deixar de escutar certos insultos à música e ao conceito de inspiração.

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