terça-feira, 6 de setembro de 2011

Praia, cães, nuvens, pessoas carrancudas...


Após um breve passeio pela praia quase deserta, invadida apenas por uns poucos atletas e pescadores inveterados, que não temem um pouco de vento e a fina garoa que caía, na manhã fria desta terça-feira, pude verificar, para meu desagrado, que as pessoas são os animais mais irracionais do planeta, pois fazem coisas as quais não tem nenhuma justificativa e a justificam de uma maneira ilógica.
Enquanto Reiko caminhava livre ao meu lado tranquilamente, uma dessas atletas de estação, que se preparam no inverno para terem o corpo sarado no verão do “pecado”, da tentação e da putaria, se aproximou de mim e perguntou-me se o cão mordia. Respondi-lhe que não, mas que, no entanto, era muito brincalhona, neste momento, Reiko se acercou dela, farejou-lhe as partes e quis fazer amizade, pois via que eu interagia com a moça. Não tinha uma atitude agressiva estava apenas curiosa. Sempre achei que seria muito engraçado se as pessoas também fizessem isso para se cumprimentarem: “Oi, amigo! Hum, você está comendo muito feijão...” mas os cães também não falam, vai ver por isso precisem se cheirar tanto. Tenho a impressão de que nosso cheiro diz muito mais a nosso respeito do que quaisquer palavras que possamos inventar, mas nossa capacidade, ou talvez a vontade, de perceber no cheiro das coisas ficou perdida em algum lugar da nossa evolução. Pode ser que simplesmente não nos damos conta, mas os caninos, sim. Chamei-lhe junto a mim, o que ela fez sem nenhum esforço, madame continuou seu cooper praguejando contra mim e a cadela que deve tê-la assustado deveras, pois se trata de um animal razoavelmente grande. “Devia deixar na coleira!” Disse ela por fim. “Quem deveria ter uma coleira era você, sua puta!” pensei  eu, mas me envergonhei no mesmo momento.  Que culpa tem ela se no mundo em que vive as pessoas tem o hábito de determinar como o outro deve dirigir a própria vida?
Eu era um “negro” com um “vira-lata”, ou poderia ser um “artista” com seu “pet”, ou um “adestrador”, ou mesmo um “marginal” com seu “mascote”. Ela poderia ser médica, advogada, presidente, garota de programa, que importa? Eu tinha por hábito tentar adivinhar o que se passava na cabeça das pessoas com quem eu cruzava durante os passeios, mas essa curiosidade, simplesmente, deixou de existir, pois no fim das contas era puro entretenimento e às vezes se tornava uma sessão interminável de desagrados, porque mesmo que elas fizessem um mau juízo de mim, isso não me dava direito algum de lhes dirigir palavras. Na verdade eu comecei a não ter mesmo vontade de falar com quem quer que fosse.
Ao atravessar a avenida, voltando pra casa depois de aproveitar um pouco de solidão com vista pro mar, alguns carros avançaram sobre a faixa sem esperar que eu terminasse de fazer minha travessia, mas eu me contive em correr e continuei caminhando calmamente com Reiko ao meu lado, como se fôssemos revestidos de aço invisível. Um motoqueiro chegou mesmo a me olhar nos olhos antes de acelerar sua carniça e partir a mil. Ninguém buzinou, mas na agonia apressada de uma manhã tão sombria que parecia até filme de Tim Burton, eu quase pude sentir o ódio por trás dos parabrisas.
Aí eu chego em casa (casa de Brust) e descubro que é o dia do sexo. “Por isso tanta gente querendo que eu me fodesse”, pensei, mas eu sabia que era apenas um dia normal para todo mundo e a maioria não tá indo nem vindo pra dia disso ou daquilo. Só querem ter a chance de sacanear um pouco mais qualquer desafortunado e praguejar contra aqueles que estão apenas vivendo melhor suas vidas; por nenhum motivo especial, só porque se acostumaram a não querer bem ao próximo, principalmente os que não saem de casa sem um bom motivo pra sorrir, ou servir. Elas odeiam aquelas outras pessoas que não passam o dia inteiro correndo atrás do sucesso que vai lhes tirar da mediocridade que é a vida urbana. Odeiam tanto que nem mesmo percebem que respirar já é mais do que demais; que o sexo é uma troca e não um suborno; que o dia pode ser radiante mesmo embaixo de nuvens opacas; que fazer um julgamento fudido tem remédio, mas uma ação contra alguém, um inimigo desavisado de seu opositor, pode não ter.

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