segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Encha de vento um pote vazio e logo ele se esvaziará

Alguém disse uma vez que eu perco muito tempo com as pessoas sem nenhum interesse. Isso se tornou pra mim um enigma, mas pensando bem acho que isso não é uma observação sobre mim e sim uma constatação de que a cada dia as pessoas dão menos importância à camaradagem pura e simples. "Você tem que querer sexo, ou grana, ou  algum privilégio. É disso que tratam as relações humanas não importa em que lugar, ou situação você se encontre. Se você não está procurando por isso está perdendo o seu tempo." Essa é uma sentença que martela a mente de muitas pessoas, mas não a minha. O dinheiro vem com o trabalho. É o fruto que mais cresce e mais se deseja desfrutar; o sexo vem em qualquer oportunidade e ser privilegiado não é nem mesmo uma opção, aliás, é sim, mas uma escolha que você faz a qualquer momento de sua vida, basta se achar merecedor e isso não tem nada a ver com seus atos meritórios.
Eu me acho merecedor de várias coisas, mas, mesmo que isso seja uma espécie de delírio, não vou jamais achar que não mereço. Também não posso achar que sou mais merecedor que o meu amigo que está mais próximo, ou mesmo um estranho que simplesmente aparece na cena. Nada disso! Todos merecemos ser mais felizes e devemos proporcionar mais felicidade sem nenhum motivo especial. É o que eu penso.
Eu observava aquela garota, quase do meu tamanho, saindo da água na praia do Buracão. Ela veio, pegou sua bolsa, tirou o bronzeador e deu uma olhada panorâmica querendo, quem sabe, alguém para lhe passar o óleo. Talvez ela só estivesse esperando a água escorrer para poder passar ela mesma, mas era uma cena tão sugestiva que não pude deixar de comentar com o camarada ao lado, que também a observava. Ela não podia nos ver, infelizmente, ou não quis olhar pro lado de cá, vai saber? Tinha um outro cara bem próximo dela, esse com certeza ela viu e por coincidência era nosso brother.
Fizemos-lhe sinal mostrando a garota, aparentemente aflita, com o bronzeador na mão. Na minha cabeça, não havia nada demais em passar bronzeador na garota. Seria apenas uma gentileza. Mas na cabeça deles e, provavelmente, na cabeça de uma porrada de gente, aquilo seria um pretexto irrevogável para cair na fornicação. (Se vai comer a mulher depois, beleza!) Mas creio que ela de repente queria apenas passar óleo no corpo e fritar ao sol. Talvez quisesse conhecer alguém e trepar como uma louca (E daí?!) Eu não tenho poderes paranormais, mas posso imaginar várias coisas. Ela pode não estar a fim de nada.
Eu não consigo pensar em nada mais belo que o corpo feminino, mas minha opinião sobre a beleza é muito ampla. Nesse mesmo dia um cachorrinho veio se aquecer junto a mim, pois a dona dele o havia jogado na água, mas apesar do sol o vento era bastante frio e aquele pobre animal tremia como em delírio febril. Acariciei-lhe e tentei aquecê-lo um pouco como se fosse o meu cachorro, meu Conhaque. Sua dona veio e o levou e trocamos ainda algumas breves palavras sobre cães e o clima e nada mais, mas achei aquilo tudo muito bonito, e aquilo me fez ficar mais alegre, com mais vontade de ter uma tarde esplêndida, talvez arrumar uma doida pra dividir uma pizza, ou simplesmente, como mais comumente acontece, aproveitar o tempo com os amigos da melhor maneira, seja enchendo a cara, seja tocando violão, ou jogando conversa fora e rindo sem parar até a hora de tocar o bonde pra casa. Isso também é viver.
Voltando à menina com o bronzeador, meu amigo não foi acudi-la, ninguém foi e ela se deitou sobre sua canga, talvez pensando que não era atraente o bastante, talvez pensando no 11 de setembro, talvez pensando em coisa nenhuma, não tem tanta importância, pois aquele momento, mágico para mim, havia se tornado uma lembrança irritante, mas vocês acham que eu me abalei com a "viadagem" alheia? 
Uns minutos depois eu estava sentado à "cabeceira", por assim dizer, de duas gracinhas que se bronzeavam alheias a qualquer coisa até que eu lhes pedi licença e comecei a tocar o violão dos outros e cheio de amor pra dar. Virou uma festa.
Rita Lee diz: "pra pedir silêncio eu berro, pra fazer barulho eu mesmo faço" e, analogamente falando, eu também sou assim: Se estou interessado numa garota, interessa a mim e a ela. Não vou esperar que meu amigo taradão se apresente pra me apresentar. Se eu não tenho um interesse especial, é mais do que justo que um amigo seja favorecido pelo simples privilégio da localização. A mim importa que a mulher esteja feliz e permaneça, seja com minha presença ou ausência; com meu som, ou o silêncio, ou meu pau, enfim... Eu sempre preferirei um sorriso, ainda que de despedida, pois nada é mais belo que o riso sincero de uma mulher. E falo isso com neutralidade.
Essa semana, minha vizinha ficou presa fora de casa, pois a fechadura emperrara. Me chamou para tentar arrombar, ou dar algum jeito. (Por algum motivo eu pareço ser alguém que leva jeito pra essas coisas,  falo de "resolver  aparentes complicações".) Deve ser uma espécie de dom que eu tenho, o fato é que após abrir a porta, simplesmente colocando a chave da maneira correta, seu sorriso de quem há duas horas esperava algum socorro, dissipou todo o meu desconforto com o contra-tempo não esperado. Cheguei mesmo a dizer que a odiava, mas aquele sorriso tão puro, de sincera gratidão, tão bonito, tornou meu desnecessário aborrecimento pelo dia absolutamente caótico em um dia de imensa beleza e poesia. Posso dizer que ainda hoje, quase consigo sorrir só de pensar nele. Imagina só? Um sorriso?
Às vezes deixamos pequenas coisas sem importância nos abalarem tanto que ficamos cegos, simplesmente, para as coisas que nos fazem ter a certeza de que essa vida vale a pena...
...um sorriso, um pôr do sol, um bicho de estimação, uma punheta, uma foda, dormir de conchinha, uma música boa que você nunca tenha escutado antes, cada coisa, a cada segundo de nossa existência ordinária deve ser vivido com extrema atenção às sutilezas, pero sin perder la dureza, com ternura. É disso que se compraz o espírito humano.

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