terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Conto de fardos

Por uma vida menos ordinária é que eu vivo e com toda minha simplicidade eu não consigo explicar que complicado é ser diferente do que sou. Ambicioso, ciumento, rancoroso, desleal, desonesto? Só se eu realmente estiver enredado, ou quem sabe até enrabichado, pra isso crescer em mim, mas eu já estou velho demais pra bancar o que eu não quero ser.
Eu não sei porque minha mãe foi me dar educação. Às vezes a gente tem que ser educado ao passar por situações constrangedoras. Eu tenho muita sorte em encará-las, talvez por tentar ser sutil, sendo desajeitado e impaciente como Jah me me fez. Eu não sei. Como cheguei a essa idade? O que me deixa mais surpreso no decorrer desses 40 anos é que agora eu percebo bem que as pessoas lhe tratarão por mais idiota e retardado quanto mais simples e humilde você for. Sempre tem um infeliz sendo humilhado e tratado como lixo por todo canto e os verdadeiros doentes mentais ficam jogando com seus bonecos: vestindo-os, alimentando-os, alimentando o próprio ego e refinando as suas crueldades cada vez mais. Eu tenho sido sorteado frequentemente. O pior é que é tudo legal e os que observam apenas as propagandas do governo, vão crendo em qualquer coisa que lhe digam. Maldita educação!
O bom disso tudo é que de cada pequena coisa ruim você pode ir criando uma nova coisa melhor e alguma hora isso vai fazer sentido. É como se fosse o livro de Lewis Carrol, “Líuiss Carol, Louis Caró" pros mais chegados. Agora eu não me lembro de nenhum outro livro dele e nunca encontro ninguém melhor que a Alice pra dar exemplo a certas situações a que qualquer sujeito está sujeito, todos os dias, de ir seguindo um rastro de merda sem nenhuma lógica, só porque não tem nada pra fazer. 
Acho que o que esse pessoal ainda não entendeu é que esse moço aqui não deseja mesmo fazer parte de enredo de nenhuma menina curiosa.
Ser simples demais não pode ser pecado. Eu não tenho que buscar um conforto que eu não preciso, uma erudição que eu não disponho, uma paz que eu não vivo. O mundo nem só se desmorona em nome do progresso, de uma vida cada vez mais desleal e escravista como nunca. Não pode ser assim. 
Nada disso é novo: A Itália dita os conceitos da moda; a Alemanha, dos carros; o Brasil, das gostosas; a televisão, a nova família estupidificada em todas as suas gerações. Por enquanto a internet parece ser segura para as pessoas simples.
Preciso comprar café. Não existe nada melhor que café com pão e manteiga. Quando eu entro na padaria passo o olho no freezer pra ver se tem heineken. No dia que tiver vai ser uma alegria danada. Pelo menos agora já tem num mercadinho perto de casa que fica aberto até às 23 horas. Preciso de um emprego pra tomar heineken, mas quero trabalho honesto, nada de escrotidão - né não Renato Russo? De boa intenção o inferno anda montado.
Sinceramente eu não tenho nenhuma curiosidade em saber qual é a emoção de explorar alguém que nada pode dar. Hoje se faz isso com a desculpa de que está ajudando, tirando das ruas mais uma possível ameaça à segurança e saúde pública. Muitas dessas pessoas jamais deixam a toca do coelho. Seduzidas por rainhas fabulosas e suas histórias supra-reais cheias de pompa e humilhação, vão ficando cada vez mais perdidas. É insano, mas é assim que tudo transcorre desde a Roma antiga. Ou será da antiga Grécia? O ano agora é 2014 e eu estou me sentindo um greco-romano. Mas que educação é essa que não me permite mandar se foder? Se for pensar na deselegância do que fazem todos os dias com milhões via televisão e ninguém pede desculpa...
Ontem um de meus melhores amigos me disse que outro dia um desconhecido lhe deu parabéns por ter sido ser honesto em devolver-lhe o que tinha acabado de cair do seu bolso. Dá pra imaginar uma coisa mais constrangedora? Vivemos um conto de fadas, só que não. Não é Luis Carol, nem tem nenhum coelho ou uma garotinha inocente perdida em fantasia. É apenas um buraco onde todos querem a sorte de se enterrar: um emprego, uma namorada, um carro, uma casa, um iate, uma ilha; várias namoradas, vários salários; vários carros; várias casas... Viver enterrado na busca frenética pelo que não precisa e pelo que não se pode aproveitar plenamente.

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