domingo, 8 de abril de 2012

Viagem insólita - Salvador / Irecê / Poções

Quase 8 anos depois de minha irmã se mudar para a terra do feijão, finalmente resolvi ir visitá-la, digo, não resolvi apenas após esse tempo, claro, tive essa idéia diversas vezes antes, mas só pude de verdade no fim do ano passado quando ela já estava deixando a cidade. Ver meu sobrinho e meu cunhado também fazia parte do pacote. Eu os amo e nunca saberei como fazer isso ser claro (às vezes nada é claro nem para mim). Mas isso não importa. Eles estavam de partida para uma outra cidade e era a minha última chance de visitar o lugar onde praticamente começaram suas vidas e onde Pedrinho correu seus primeiros passos.
Pra começo de história para mim nunca é fácil sair de Salvador. Incrivelmente tenho milhões de compromissos quando quero me ausentar por um tempo e querer foi algo bem constante ao longo de 2011. Fiz algumas viagens bem "Gonzas", digo, algo como um louco a fim de viver histórias fantásticas, mas me dirigir a Irecê era algo que eu deveria fazer bastante sóbrio. Não queria estar loucão na casa de minha irmã, com meu cunhado "pulíça" e meu sobrinho pequeno, não seria muita sacanagem com eles? Também estava muito cansado de beber o tempo todo, acreditem, já estava pensando numa despedida e pretendia ficar em Irecê até 2012 chegar.
Como eu ia dizendo, nunca é fácil deixar Salvador. Na véspera da viagem a minha banda fabulosa "The Honkers" tinha a gravação de um programa "Vandex TV" e após isso a despedida de uma amiga que fez fotos maravilhosas da gente(Carol Miag), fora isso, na manhã seguinte eu ainda iria doar sangue para uma outra amiga e não poderia encher a cara, porque o paciente necessitava de sangue não de álcool. Era preciso estar no banco de sangue, de cara, às 8h da manhã e às 9:30 deveria estar na rodoviária. Motivos bastante simples para eu não estar muito feliz, mas foi assim.
Não pude, lógico, ficar na cachaçada porque teria que estar com sangue "limpo", mas tomei umas duas para me despedir de Carol Miag, que nos cativou, fotografou e encantou a todos sem nenhuma cerimônia. Uma verdadeira pérola que se escondia sob a fumaça de São Paulo. De nada adiantou esse sacrifício de beber pouco. No dia seguinte, no banco de sangue a demora em ser atendido não me deixou doar e a merda do trânsito de Salvador quase me faz perder o ônibus, mas no fim deu tudo certo.
O ônibus saiu às 10:15h e eu estava feliz e até bem disposto. Há algum tempo eu sentia minha tolerância a tudo ir para as cucuias e a causa única era estar na cidade grande tempo demais. Não consigo mais tolerar o "jeito prático" de se viver na cidade. Tudo o que eu enxergo é confusão, tudo o que eu ouço é barulho e tudo o que sinto é repulsa. Mas não é pra falar disso que estou escrevendo.
A viagem durou intermináveis 9 horas, mas não foi cansativa, longe disso. Eu tinha, para ajudar a passar o tempo, Dostoiévski (O Adolescente) e meu mp4 que deu problemas, mas consegui ouvir até o fim da bateria (após isso ele morreu pra sempre e hoje serve apenas de pendrive). O ônibus fez inúmeras paradas e a cada parada eu me levantava para esticar as pernas (em qualquer veículo motorizado elas são duramente castigadas pelas poltronas com medidas para pigmeus. Eu não tenho nada contra os pigmeus, mas minhas pernas também não são nenhuma aberração, não sei porque tenho que sofrer tanto...).
Em Baixa Grande, numa dessas paradas, subiu um senhor de seus 70 anos carregando um painel solar ao ombro. Aquilo devia ter 1,30mx70m e pesar uns 40kg, mas ele não demonstrava cansaço. Entrou sorridente e conversador e foi achar lugar justamente ao meu lado. Ajudei-o a se acomodar com seu trambolho e logo entabulamos animada conversa. Contou-me que tinha trazido o painel para consertar, mas o rapaz da assistência lhe disse que se havia algum problema este seria na bateria usada para armazenar a energia, seu painel estava ótimo. Segundo me contou, teve que caminhar 8km, atravessar cercas e porteiras com aquele troço às costas até chegar na BR e agora faria o caminho de volta. Várias fazendas da região utilizavam a energia solar para suas casas e cercas elétricas. Ele contou várias histórias. Uma sobre um grande fazendeiro da região, um tal de “Nilo não sei das quantas”, que após destruir quase toda a mata nativa em sua propriedade e ser impiedosamente multado pelo IBAMA, proibira a caça em suas terras, ameaçando aos caçadores de morte, o que causou um grande efeito nos moradores da região. Mostrou-me grandes faixas de mata desmatada transformadas em pasto, e até vimos algumas cabeças de gado. Foi uma conversa breve, porém deveras aprazível. Nem deu tempo de lhe perguntar seu nome, mas foi uma verdadeira satisfação trocar ideias com pessoa de cultura tão peculiar e de educação tão rara.
Cheguei em Irecê e minha irmã foi me pegar na rodoviária com o pequeno Pedro. Fiquei um pouco chateado comigo mesmo por não ter lhes levado algum presente (sou um leso mesmo, fazer o que?). Ele não sentiu falta, nem mesmo demonstrara alguma frustração. Seu sorriso, e que sorriso!, tímido, logo cresceu. Ao chegarmos em casa brincamos como se estivéssemos juntos a vida toda. A parceria é forte. A casa estava quase vazia, tudo empacotado e apenas o básico do básico estava fora das caixas: TV, dvd, cafeteira, coisa de cozinha...
Não ter levado a bike e o violão foi outro mole, mas, como da véspera da viagem eu não retornaria em casa, e saíra com sacola e baixo, não daria, de jeito nenhum, para levar as coisas todas, ainda mais de bicicleta, e de todo jeito eu não sabia ao certo quantos dias eu ficaria em Irecê, para onde iria depois de Poções e quanto tempo eu conseguiria ficar longe de casa. Pelo menos o notebook coube na bagagem.
A primeira manhã em Irecê foi de alta adrenalina. Jogando bola com Pedrinho no quintal, consegui chutar por sobre a lage dos fundos. Não tinha escada e eu tive que escalar pela grade enferrujada enquanto a moça que cuidava de Pedrinho observava meio receosa, meio que se divertindo. O medo em nenhum momento pairou sobre minha alma, mas eu podia senti-lo nos olhos que me olhavam. Na verdade eu nem sei se era medo mesmo, mas havia algo de muito estranho que não vinha de mim. Graças a Jah consegui subir e pegar a bola, e descer também, que não foi uma tarefa mais fácil que subir.
Depois da aventura na “lage do pânico” eu tratei de ir encher o pneu da bike de minha irmã, uma caloi poti com cestinha e tudo, mas sem cadeira para criança, o que me impediria de levar Pedrinho para um passeio, mas tudo bem. Fui encher o pneu para dar uma voltinha mais tarde. O fato de lá ter mais carro que pessoas me deixou de alerta ligado. “Carros malditos!”
Descobri, pra meu desgosto, que, apesar de não ter um pagode tocando nas alturas o tempo inteiro, Irecê é mais barulhenta que Periperi. E quente... Putacidadequentedocaralho!!! Era muito melhor passar o dia inteiro em casa com Pedrinho assistindo backyardigans. Sem sombra de dúvidas.
A babá de meu sobrinho sempre ia embora após o almoço e éramos apenas nós esperando mamãe(minha irmã), que tinha ido acertar os últimos ponteiros com o trabalho que abandonaria. Nós em tese, porque Pedro dormia lindamente depois de encher a pança, e eu ia escrever. Os dias seguiram meio assim até a sexta-feira: De manhã brincar até cansar, depois do almoço descanso. Vidas de reis.
Numa tarde, Cristina me levou pra dar uma volta pela cidade, para que eu pudesse conhecer e me localizar melhor nela. Aproveitei pra comprar umas cuecas e depois fomos até a casa que eles estavam construindo. Logo na entrada da rua avistei o bar mais legal de toda Irecê. “Tenho que voltar aqui de bike.” pensei imediatamente. A casa deles fica numa área nova que da cidade, onde futuramente será mais um bairro caótico, mas que por enquanto é um recanto de paz e tranquilidade para centenas de enormes centopéias.
Às vezes eu pegava a bike de minha irmã e levava Dostoiévski para passear: colocava o livro de 600 páginas dentro da cestinha e saía pedalando até quase fora da cidade, onde me sentava e pedia uma cerveja e começava a ler completamente ausente do mundo que me cercava. Apenas uma coisa me aborrecia: a cerveja era aberta lá no balcão e se eu não tivesse observado já da primeira pedida que havia uma chave pendurada lá, certamente iniciaria uma aula de como se servir cerveja, sem irritar os bebuns, mas não era necessário. Eu bebia calmamente e lia aproximadamente 10 páginas a cada cerveja. Tentei chegar no bar que avistara perto da casa nova, mas não achei.
Na sexta eu inventei de ir a um show, mas não era de rock. Eu jamais pensaria, em Salvador, em ir ver tal cantor, mas sabe como é o tédio da cidade pequena: a gente sempre procura algo que não está em lugar nenhum. Além do mais tinha encontrado uma amiga que há anos via e não comíamos água profissionalmente, pois seu marido é um mala. Felizmente ele não estava na cidade e lá fui eu para o show de Jauperi, com ingressos custando inacreditáveis 70 reais na área vip, que dava direito a cerveja e vodka até que o mundo se acabe. A bebida era servida em copos que logo formariam uma montanha. Os organizadores da festa compraram todo o estoque de cerveja de 1 litro da cidade e mesmo assim não foi o bastante, pois antes do final da festa não havia mais uma gota sequer.
O show era de Jau, mas a presença fantasmagórica de Xexéu foi realmente uma viagem. Seu filho, cujo nome eu não lembro, foi apresentado ao mundo axezístico insuportável. O “pivete” tem a mesma manha do pai para a coisa. Uma coisa horrível que cada litro de cerveja tornava ainda mais insuportável. Pra salvar a noite a festa também teve uma banda de poprock tocando, dentro da área vip, um repertório pouco mais interessante do que o palco principal. O lugar estava muito florido. Não tenho mais a comentar sobre isso.
No domingo meu cunhado resolveu dar o ar da graça e nós demos uma volta completa pela “night irecezence”, mas não houve nada que animasse muito, por ser domingo e por ter muito mais arrocha que o suportável a ambos. Na segunda-feira partimos para Poções. Foram 600km de chão com paradas em Iraquara, depois em Itaberaba, para um almoço na casa da mãe do Júnior (motorista que foi levando o carro de minha irmã).
Júnior é motorista há mais de 30 anos e se diz pronto para se aposentar. Nos seus tantos anos de serviço ele pôde acompanhar o desenvolvimento da chapada, construção de estradas, ligações a povoados outrora remotos, acessíveis apenas com montaria. Por vários anos ele ia e voltava, todos os dias, antes de existir BR 242, antes do parque, de virar reserva, quando tudo era ainda terra de ninguém. Fiquei imaginando tudo aquilo sendo re-povoado depois do fim do garimpo. “Ainda hoje aparece ruína de construções dos tempos áureos e muitos ainda encontram tesouros nelas.” me disse.
Poções à primeira vista era mais uma cidade de interior cheia de gente branca metida a besta, mas essa foi só uma impressão. Ainda não tive tempo de apreciá-la adequadamente, pois no dia seguinte estava retornando a Irecê para buscar Lara, a cadela, e a mudança. Cláudio tinha que resolver mais alguns negócios também e lá fomos nós.
Saímos no início da noite e chegamos pela manhã, depois de pernoitarmos no carro. Júnior tinha ido também dessa vez dirigindo um caminhão que descarregamos de algumas sucatas que trouxeram e carregamos com a mudança. Esse processo levou a metade da manhã. O caminhão se mandou de volta à Poções e eu aproveitei todo o meu tempo livre para beber. Não digo apenas beber, era beber para acabar com o calor, com a sede, com a fome e com o mundo. Tudo o que fiz depois de acabado o trabalho pesado foi me aplicar pesado em manter a “tampa” cheia. Cortei o cabelo em frente ao trabalho de Cláudio e, como ele demorava, fui beber no boteco da esquina. O véio do bar era gente finíssima, seu amigo, véio como ele, insistia em desafiar os caras que lá estavam para uma partida de dominó valendo a cerveja, mas segundo um dos caras ele já perdera da outra vez não pagou e queria perder de novo. Jogaram uma nova partida e o tiozinho perdeu novamente.
Fomos almoçar num dos points de Irecê, onde serve uma carne responsa. Depois do almoço eu só perguntei por um bar “profissa” para se beber decentemente numa tarde calorenta como no inferno. Fomos novamente ver a obra da casa nova e paramos num bar próximo à estrada(não aquele) para eu satisfazer minha vontade de me chapar, ficando cada vez mais imundo até alta noite. Falei besteira, toquei violão, filosofei, enchi o saco de umas meninas, conversei com o pai de uma delas e só sei que quando cheguei em casa, na casa antiga, minha única ação foi colocar o colchão no chão e apagar.
Acordei 4 da manhã, cheirando a sei lá que demônio e com o olho direito inchado. Tomei um banho revitalizador e clareador de ideias. Lembrei que tinha recebido uma ligação urgente quando estava bêbado, era “Paulinho DDD” me avisando que iria para Salvador e passaria por Poções para me dar uma carona de volta a Salvador às 10h. “Adeus ao plano de só voltar ao caos em 2012”. Ele Sairia de Conquista e planejava passar também em Jaguaquara para visitar alguns paraentes, mas não estava seguro de ir sozinho, pois ainda sentia alguma dor na perna acidentada há 6 meses.
Colocamos o restante das tralhas no carro, Lara subiu na mala e caímos fora de Irecê. Minha ressaca não era nada, mas meu olho, provavelmente por causa de um cabelo, ficou irritado vindo a desenvolver uma espécie de terçol, mas que eu conheço bem, não passa de um cravo dentro do olho. Assim que retornamos a Poções tentei ligar para o Paulo(DDD, Emílio, Paulinho) pra saber se ainda teria a carona, já que chegamos pra lá de meio-dia e meu celular descarregara na noite anterior. Assim que liguei o aparelho 6 mensagens apareceram e 4 eram de Paulinho. Ele ao perceber meu telefone sem sinal naturalmente achara que as mensagens chegariam. “Quanticamente, Paulo Emílio?!”.
Com ou sem quântica o que sei é que quando me sentei para almoçar o telefone tocou e era DDD dizendo que estava passando por Poções naquele exato instante. Disse-lhe onde me encontrar e após o almoço fomos buscar minha bagagem. Por alguma razão que eu ainda não sei como explicar, ao entrar tive que me esconder no banheiro pois um anjo triste baixou em mim e eu chorei copiosamente, talvez por nunca ter passado tanto tempo com meu sobrinho e saber que sentiria sua falta, talvez até por querer ficar mais um pouco, sei lá! Fiquei alguns minutos lá, só, pranteando.
A tristeza sempre me pega. Não tive mais tempo de curtir Pedrinho, não bagunçamos a sua casa nova, não passeamos pelas ruas enormes de Poções, não ajudei a arrumar a casa para o natal e não fiquei até 2012, mas com toda a certeza de todas as viagens que eu tive em 2011 essa foi a que me fez perceber com mais clareza o quanto eu estou ausente.

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