quarta-feira, 10 de março de 2010

A ordinariedade da vida


Eu ainda tento entender como é que eu consigo transformar minha vida numa coisa tão irreal, inconcebível, estúpida e ordinária. Algumas vezes eu não preciso passar por certas coisas, mas eu as persigo assim como um cachorro maluco que vê o próprio rabo e tenta mordê-lo.
De repente, sossegado, confortável em meu canto, em um canto qualquer, resolvo simplesmente sair e me perder por aí. É como se meu futuro estivesse atrás do meu passado para transformar o presente em algo mais real, novo, emocionante... Não sei. O que acaba acontecendo é uma coisa que podemos até chamar de axioma. Não importa o tanto de merda que eu já fiz, que me levaram até onde estou, o que importa é que eu estou aqui, então a gente vê uma situação em que não é necessária nenhuma explicação: Thilindão, madrugada, tempo livre, depois é casa, o que é que eu vou fazer?
Sexta-feira passada eu fiquei meio puto com a chuva, porque com ela eu não queria sair de bike. Eu ia me sujar todo, pra depois ter que arrumar um lugar pra tomar banho, ficar limpo, cheiroso, além de ter que carregar uma muda de roupa etc, pois iria para um aniversário e não poderia ficar imundo numa festa (por mim eu ficaria, mas sabe como é, né?). Resultado: fui de busu lendo meu livro do mês e vendo que a cidade não tinha nada de encharcada e eu podia ter ido com Mariana, mas eu nem tava ligando. A noite era agradável e tinha tudo pra ficar ainda melhor.
Cheguei na casa da aniversariante e lá estavam suas amigas maravilhosas, cervejas, música e um calor condenado, além de uns brothers também, é claro. Foi uma noite realmente muito agradável, mas eu sou cachaceiro e não desisto nunca...
Depois da festa peguei uma carona pro Rio Vermelho, pois sempre se encontra uma boa alma na madrugada pra encerar uma noite legal. Fiquei me chapando mais um pouco com uns coligados que encontrei até amanhecer. Eles ainda foram pra outro reggae mas eu peguei meu busu de volta pra casa. Cheguei umas 8 e pouca da manhã. Eu estava feliz em casa tomando meu café pra dormir.
Acordei 14h, olhei os e-mails, recados, essas merdas e recebi um convite pra mais uma cachaçada. Almocei e saí novamente, dessa vez de bike, para a Barra, onde eu pensava que depois de tomar umas ainda conseguiria ver o pessoal que tava lá no Porto, no “espicha verão”(às vezes eu sou tão inocente...). Demorei apenas 45 minutos para chegar no Chame-Chame e a cerveja já estava lá me esperando, gelada, esplêndida. Fiquei por lá a noite toda na cachaçada, tocando violão, rindo com as conversas insanas e sessão de fotos surreal e muita insanidade que nem vem ao caso nessa história toda. O tempo passa muito rápido quando a gente está se divertindo e antes que aquele soninho escroto que sempre me persegue nas noitadas me alcançasse já eram 4 da manhã e eu resolvi ir embora.
Na minha cabeça não havia nada de errado. Eu estava me sentindo super bem e se na vinda com trânsito eu tinha gastado 45 minutos a chance de eu bater esse tempo na volta era muito grande, pois não tinha nem trânsito, nem pedestres. Ledo engano.
Pra começar a desgraça eu resolvi ir no Porto ver se achava ainda viv’alma. Não tinha porra nenhuma (se vacilar nem mendigo), aí eu resolvi voltar pelo Chame-Chame pra pegar a Av. Contorno, mas resolvi parar pra relaxar e curtir a “brisa”... da madrugada. Fiquei uns 20 minutos sentado num dos bancos da Av. Centenário olhando o trabalho da “CaosSalvador” numa colisão de veículos. Quando saí de lá já não queria pegar porra de Contorno nenhuma, subi para o Campo Grande e fui numa lanchonete que fica na Carlos Gomes matar a larica, porque é claro que eu me esqueci de comer enquanto comia água. Pedi o maior sanduíche e um suco que não fosse de laranja, mas nem adiantou muito, o sanduíche não era tão grande e veio suco de laranja mesmo. Depois de abastecido, isso já devia ser umas 5h, montei novamente em Mariana e desci a Contorno, mas antes de chegar no Elevador Lacerda advinha quem veio? O sono. Mas não aquele soninho que você engana com chiclete, se eu não parasse eu ia me arrebentar (sinceramente eu ainda não sei como isso não aconteceu).
Não quis parar no Elevador porque ali é cheio de pilantras e não é bom ficar de bobeira ali de madrugada (se bem que já era quase de manhã, mas eu não queria que ‘sei lá quem’ me visse ali. Viagem!), então eu fiz um pequeno pit stop lá em Água de Meninos, mas o cheiro de peixe não me deixou lá muito tempo e eu segui até a Calçada. Quase arrisco pegar o trem, mas ainda achava que era mais fácil chegar de bicicleta. Me enganei mais uma vez. Parei novamente num ponto de ônibus em Lobato e por fim num posto no pé da ladeira de Plataforma, onde o frentista vendo minha cara de derrota me ofereceu um papelão e o gramado no fundo do posto pra eu tirar um cochilo salvador. Não sei por que eu sempre fico de cara quando descubro que nem todo mundo é fila da puta nessa cidade. Acho que eu cochilei por pouco mais de uma hora, mas era o bastante pra eu conseguir subir a ladeira e chegar em casa.
Chegando em PeriCity, dei uma passada no feijão (que rola todo domingo na rua das Virgens) pra ver se achava um parceiro pra tomar mais uma e bater o feijão pra dormir, mas nada. Fui pra casa fazer meu café da manhã mágico e depois de estar bem alimentado, cheiroso e pronto pra hibernar como um grande urso o telefone tocou me convidando para uma pedalada até Moinho Aratu. Eu nem pestanejei e disse que em poucos minutos estaria lá. – É só o tempo de colocar uma roupa.
Era um domingo esplêndido de sol, praias lotadas, crianças pra cima e pra baixo nas praças, eu e Mariana ganhando novamente a rua em direção a Tubarão, São Tomé e Moinho. Depois do passeio fui visitar os amigos na Cidade de Plástico e fiquei fazendo um som com O Terreiro até o cair da noite que foi quando eu finalmente achei que era hora. Tinha um rock em Plataforma pra ir, mas a chuva ajudou minha alma perdida a não querer levar meu corpo pra alguma outra insanidade.

Eu acho que tenho muita sorte por estar vivo e não posso deixar nunca de agradecer a quem quer que seja por isso, mas o melhor de tudo é saber que às vezes vale mesmo a pena fazer certas besteiras, me arriscar, ou simplesmente perder meu tempo com coisas que não me trazem nenhum benefício financeiro, sexual ou qualquer outra coisa que tenha algum valor para alguém. Acho que ninguém precisa se chapar o tempo todo, foder o tempo todo, ou ter dinheiro o tempo todo para encontrar a felicidade. Só não pode é exagerar na estupidez.

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