domingo, 17 de fevereiro de 2013

Agora é com os advogados...

Um mês e 6 dias depois e nada do que eu fiz até agora serviu pra coisa alguma relacionada ao meu acidente. Pelo menos no Detran, que é o lugar que deve resolver a questão, só me fizeram perder meu tempo e me pedir pra retornar no dia seguinte: "porque o atendimento começa às 6 da manhã e é em ordem de chegada";  à tarde: "porque a gente só atende até 8 pessoas"; dia de são nunca: "porque agora a gente atende apenas quem tá chorando" e por aí vão os absurdos e maus tratos que o cidadão tem que passar para poder ter um serviço que ele jamais queria ter que precisar. Maldita hora em que fui atropelado! Perdi trabalho, perdi passeio, perdi o verão e perdi a bike. Eu sei que a vida é construída de situações de perdas e ganhos, alegrias e tristezas, altos e baixos, mas tem horas que parece que tá tudo girando no negativo.
Foi no dia 9 de janeiro que eu acordei cedo, levei a bicicleta até Ney pra fazer uma regulagem básica, afinal há algum tempo Marieta precisava de um óleo e uns apertos. Só fui buscá-la depois do almoço e de lá mesmo segui caminho para a Barra, onde eu iria ter uma reunião de trabalho. 
Ainda em plataforma eu parei para ajustar a posição do guidão, que poderia ficar mais pra frente um pouco. Dia agradável, o trânsito estava razoavelmente amigável e apenas um ônibus me pareceu um pouco mais imprudente jogando seu corpão todo pra cima de mim, mas eu estava ligado e me saí dele e segui sem nenhum problema até sair da Av. Lafayete Coutinho, passar em frente ao ICBA e BUUUUM!!!.
Saí de Periperi por volta das 14:30, minha reunião estava marcada para 16h. O dia estava ótimo pra pedalar, pra sair de casa, era um dia claro, arejado, sem nuvens no céu e de bicicleta você se sente ainda mais livre com o vento do deslocamento lhe lambendo quase todo tempo, perdendo às vezes só pra fumaça dos carros, mas metrópole é isso aí. Depois de subir a Contorno eu queria acelerar e comecei a passar as marchas lentamente para as catracas menores, com cuidado, uma a uma, ligado se vinha carro atrás, se haviam carros à frente, tudo livre e as trocas estavam rolando tranquilamente, mas aí... BUUUUUUM!
Vejo alguma coisa, escuto alguma coisa, começo a entender que bati num carro (DE ONDE SAIU ESSA DESGRAÇA?! pensei). Sinto minha cara torta e tento fazê-la voltar pro lugar. Meu corpo está todo adormecido e eu pergunto à assassina, que parou com o impacto, (com o barulho, com o remorso, sei lá) se minha cara estava normal e que porra que ela fez e . Eu não queria nada dela, apenas saber o que aconteceu, mas a criminosa rapidamente entrou em seu carro e subiu pro seu prédio. Ainda tive a ação de olhar a placa e pegar o celular que estava no bolso da bermuda pra fazer uma foto, nem me lembrei da câmera na pochete, mas tudo bem, eu já sabia a placa e tinha a foto.
Fiquei ali sentado com minha cara de babaca sem saber o que fazer. Tentei ligar pra um de meus meus irmãos ir me buscar, mas não tinha o número de um desde que perdi outro celular em 22 de setembro quando deixei em cima do carro do Kuén ou de algum dos amigos de Ganso. Liguei pro mais velho que estava trabalhando, liguei então para seu Vanderlei, para ele ligar para meu outro irmão e avisar o que acontecera. 
Um brother do rock das antigas (Leandro) e que hoje é um sem-teto apareceu logo em seguida e veio curioso sobre o que tinha havido,  lhe contei de alguma maneira ainda meio incréduulo e ele me disse para "ter fé e botar pra fuder". Depois que ele seguiu seu caminho pra Gamboa, um cara que disse que trabalha em frente ao local do acidente veio falar comigo. Disse que tinha visto tudo, que ela fora imprudente, que eu deveria subir e tentar falar com ela, mas eu não sabia o que lhe dizer. Àquela altura eu não sabia ao certo quem eu era, não lembrava da agradável sensação de estar indo ver um trabalho novamente, um que eu posso fazer antes ou depois de andar de bicicleta, que eu posso carregar na mochila, que eu posso, se for preciso, fazer no celular, não lembrava do quanto me sentia bem por não estar sentindo falta da birita mesmo agora que voltei a campo, não me lembrava que apesar de todo o amor dispensado no final de 2012 eu estava super satisfeito com minha "sorte amorosa". Eu sempre amei mais do que o necessário, mas sempre fui mais frio que o preciso quando foi preciso, mas eu não pensava em nada disso. Não me dei conta naquele momento que toda a minha vida, minha felicidade e meus melhores momentos estavam intimamente ligados à bicicleta e ao ato de sair pelo mundo numa magrela.
Quando eu me dei conta mesmo do que aconteceu eu não conseguia pensar em nada mais além de agradecer a Deus, a Oxalá, a Gaia, a Shiva, a Iemanjá, ao vento, à terra, ao sol... tudo o que eu racionalizava era que eu tivera muita sorte. 
Liguei para a polícia (190) que me mandou ligar para a SAMU (192), que ao chegar(pouco tempo depois), a princípio não queria vir até mim mesmo eu tendo lhe feito sinal do outro lado da rua. Depois a enfermeira veio me dizer que eles tinham ido atender uma colisão e a estavam procurando. Eu ainda lhe expliquei que isso era uma colisão de uma bike e um automóvel, dois veículos. A polícia nunca apareceu, em vez disso, Rodrigo Chagas, o lendário vocalista de minha hoje antiga banda lendária veio correndo não sei de onde ao me ver ali sentado na calçada sendo atendido. Ficou indignado ao saber que a polícia fora solicitada mas nunca apareceu, então foi ele mesmo a pé até o posto policial no Campo grande, mas os caras lhe disseram que não podiam ir e ele voltou, depois ele saiu de novo e retornou numa viatura, mas os policiais disseram que nada podiam fazer pois não podia entrar no prédio, nem chamar ninguém, nem coisa nenhuma por causa de um preto fudido que tinha sido atropelado e deveria ter morrido para lhe poupar o trabalho de ser imprestável. Felipe (meu irmão) chegou e levou a bike pra casa. Eu ia ficar com a SAMU.
Próximo ao local da tentativa de assassinato tinha um desses tampões de metal da embasa meio solto e um pouco abaixo do nível do asfalto e cada moto ou mobilete que passava, ao cair na depressão, derrapavam e seus pilotos se desequilibravam e alguns só não caíram por destreza. Enquanto era atendido e esperava também passou uma llinda ferrari vermelha fazendo barulho no mesmo retorno que a assassina, mas este não fez a contra-mão pra subir no prédio. Alguns carros subiram, alguns moradores até perguntaram o que tinha acontecido, mas pergunta se alguém quis se meter?
Fui na ambulância até o hospital Ernesto Simôes e pensei que estávamos em guerra visto o tanto de macas no corredor e a falta de organização na qual ninguém sabia onde tinha um médico. Fiquei lá de 19h até quase 23h e tomei apenas uma dipirona na veia o que aliviou as dores no pé e no joelho e fez o punho esquerdo começar a doer o que até então eu não tinha sentido. Fiz um rx da coluna mas não foi observada lesão e o médico me liberou após verificar que eu não poderia fazer uma ultrassonografia porque não havia quem o fizesse. Jane foi me resgatar.
Agora, depois de um mês, que eu já agradeci bastante (mentira! nunca será bastante!), me aborreci bastante, descansei bastante e me recuperei mais ou menos, posso dizer que estou pronto pra outra, digo, pronto pra pedalar novamente e encarar essa cidade hostil e cheia de veículos desgovernados, ou mal governados por motoristas mal-educados para o trânsito, pessoas sem nenhuma noção de respeito à vida e ao próximo.

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