quarta-feira, 28 de julho de 2010

O pardal

Era mais uma manhã sombria de inverno. Na praia, apenas algumas poucas pessoas que necessitavam de espaço fora da vida barulhenta do bairro, como os três amigos que se sentaram apenas para admirar o vai e vem da maré e a paisagem cinza bucólica, e a menina que passeia sozinha dividindo pensamentos com os pombos que mariscam na vazante. Olhando mais ao longe pode-se ver vários cães vadios atrás de uma única cadela descontrolada. Os pensamentos iam e vianham e a mente flutuava leve sob o céu plúmbeo. Nada no ar, na terra, ou no céu poderia causar mais espanto do que aquele pássaro ordinário rodeando as flores, atrás de algum inseto obviamente, como um verdadeiro beija-flor pairando no ar e observando a vítima.
Nunca tinha observado um pardal pairando. Havia tanta beleza, ainda que com pouca graça, e uma leveza desajeitada que fez com que meu espírito também quisesse compartilhar aquele desvio de personalidade, ser outro ser por uns momentos apenas para não compartilhar da podridão da minha própria espécie vil.
Era um danado aquele pardal. Muito esperto. Assim como as pessoas na praia, ele também buscava um momento de liberdade. Assim como muitos em vários lugares fingindo ser o que não são, ora para impressionar alguém, ora para não encarar a si mesmo, mas com toda a certeza insatisfeito com o rumo natural das coisas, pois assim como na lei de Murphy, a sorte tende a falhar quando não se está atento a percebê-la. 
Eu tive a sorte de admirar aquele vôo curto, talvez voltando lá todos os dias jamais consiga observar aquilo novamente. Talvez já tenha visto antes e nem tenha dado importância. Agora eu consigo perceber várias coisas que passavam batidas. Agradeço àquele pardal.

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