segunda-feira, 18 de maio de 2015

Assassinato em 0 grau

Sabe aquelas histórias que você daria tudo para não saber? Aquelas que mudam a forma como se encara algumas coisas porque se descobre que a verdade tem vários lados? “Não há nada que justifique tapa, mas algumas vezes é preciso bater; todos temos direito, mas às vezes tem-se de excluir.” A Cidade de Plástico é uma favela urbana a beira mar localizada no subúrbio ferroviário de Periperi em Salvador, Bahia. Algumas vezes eu fui abordado pela polícia lá dentro, encontros tão estressantes pra nós, pra eles, pros moradores, quanto perigosos, pois é uma área visada pelo tráfico e, consequentemente, da polícia. Graças a Jah não deram em nada.
Tenho amigos lá na na CDP, tenho trabalho lá, faço música lá, “perco” muito do meu tempo dedicado àquele lugar e as pessoas que vivem lá. Vi muita gente entrar no movimento sem-teto, uns sem nada outros com uma vida enorme na mudança, todos numa mudança enorme de vida. Pessoas querendo sumir, pessoas buscando uma oportunidade para aparecer. Mas de uma hora pra outra e sem aviso prévio tudo pode mudar ainda mais numa ação mal executada da polícia, ou numa discussão mal resolvida de vizinhos ou de negociantes.
No dia 12 de maio, mataram uma garota na Cidade de Plástico. Ela nem morava lá, morou em minha rua, estava só visitando uma tia. Só fui saber que era ela no dia seguinte quando lembrei de sua irmã gêmea e sua outra irmã, seus primos... senti raiva. Na ação da polícia, a favela seria cercada e quem corresse seria fuzilado lá do alto. Houve um disparo, corre-corre, vários outros disparos e então começou a confusão. Dizem que um policial saiu sendo amparado pelos colegas, dizem; que ele chorava por ter atingido uma inocente, dizem; ela já tinha fugido do tiroteio e fechava a janela da casa da tia, dizem... dizem. E eu só vi parte da confusão pela TV. Fecharam a suburbana, queriam fechar a quinta delegacia, porque não se pode entrar em favela alguma matando aleatoriamente.
No dia seguinte, o encarregado de se pronunciar em nome da PM disse na TV que o tiro que matou a garota fora dado a queima-roupa, logo, não poderia ter sido disparado pela polícia. Eles dizem qualquer coisa para se evitar a revolta, mas não deixam de causar sofrimento a quem já carrega tantos fardos. A garota não tinha nada a ver com armas ou drogas, e morreu, e isso ninguém evitou. Como ninguém evita a violência doméstica de todo dia, ou os maus-tratos com os menos favorecidos, o machismo, o preconceito de cor e de credo. E quem se pronuncia pelas vítimas?
A polícia faz seu trabalho contra o crime; a televisão, contra o silêncio dos inocentes; o povo apenas finge que vive sua própria vida mas segue sendo escrava e escravizando a si próprio com hábitos viciosos e nocivos a qualquer vida e sociedade. Ainda conheço homens que acreditam que devem espancar “suas” mulheres para que estas lhes respeitem, batem e estupram, e o mais incrível é que algumas aceitam essa condição não sei se por prazer ou por desconhecer uma outra possibilidade.

A garota morta pode ter sido queima-de-arquivo, pode ter sido bala perdida, mas se para uns é apenas mais um número de estatística, para a família e os moradores da CDP não. Pra mim que a conhecia apenas de vê-la aqui no bairro é assustador. Ela não frequentava os mesmos lugares que eu, mas tínhamos amigos em comum e assim como foi ela, a vítima, poderia ter sido qualquer um dos nossos amigos que frequentam a Cidade de Plástico. O que podemos notar é que a polícia é reflexo do povo ao qual serve, então: CHEGA DE VIOLÊNCIA!

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